Meio ambiente País pode ser responsável por 10% dos negócios entre 2008 e 2012, que devem movimentar US$ 10 bi

Brasil já lucra com crédito de carbono

Marcelo Lojudice, De São Paulo


Foto: Cacalos Garrastazu/valor

 

Breno Palma, diretor Sasa: carbono vai tornar projeto de energia viável

 

O Protocolo de Kyoto promete melhorar o clima do planeta na próxima década. Enquanto isso não ocorre, ele já está melhorando as finanças de algumas empresas no Brasil. Companhias como a Plantar, Sasa, Usina Piratini/CGDE e Usina Catanduva estão se antecipando a aprovação do protocolo e já fecharam ou estão negociando acordos de venda de carbono equivalente.

"Estamos assessorando projetos que vão negociar mais de US$ 40 milhões em créditos de carbono no Mercosul", diz Nuno Cunha, diretor da Ecosecurities, consultoria especializada na montagem de projetos de venda de carbono equivalente, através dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (ver contexto).

São empresas de áreas como siderurgia, papel e celulose, saneamento e recursos renováveis que fazem parte do portfólio de clientes da Ecosecurities. Segundo Cunha, os projetos que estão sendo desenvolvidos tem duração máxima de até 21 anos e os créditos de carbono estão sendo vendidos para países como Holanda e Canadá e para o Banco Mundial.

Os números da Ecosecurities mostram apenas o potencial de um mercado que ainda está em fase de gestação: "entre 2008 e 2012 estima-se que podem ser comercializados US$ 10 bilhões em créditos de carbono ao ano, e o Brasil deve ser responsável por 10% dessas vendas", avalia Ricardo Esparta, diretor da Ecoinvest, assessoria financeira de projetos de desenvolvimento limpo na área de energia renovável.

Hoje, a Ecoinvest está trabalhando em 12 projetos que visam a venda de carbono equivalente. Outros 24 estão em fase de análise. "Até o início de 2002 tínhamos de pagar para trabalhar. No começo do segundo semestre as empresas começaram a nos procurar para fazer estudos de potencial", afirma Esparta, o que demonstra a rapidez com que as companhias estão descobrindo essa nova oportunidade.

As consultorias estão sendo procuradas para verificar potenciais de redução de emissões de carbono, que se transformam em créditos para posterior negociação. É o caso da White Martins, da Arcelor e da CAF, que contrataram especialistas para estudar seus processos produtivos.

O interesse sobre o assunto vem aumentando tanto no meio empresarial que câmaras de comércio de vários países, organizadas no Brasil, se uniram para formar um comitê e discutir como apoiar esse tipo de projeto e como orientar seus associados sobre as negociações de créditos de carbono. Ricardo Rose, diretor de meio ambiente da Câmara de Comércio Brasil Alemanha, afirmou que nos últimos meses 18 empresas de origem alemã procuraram a Câmara interessadas no assunto.

A expectativa é tamanha que alguns executivos acreditam que o carbono será a salvação da lavoura, mas isto está longe da realidade. "O carbono vai ser o chantily do morango, será apenas uma receita adicional, a empresa deverá ganhar dinheiro com seu processo econômico", explica Marco Fujihara, diretor da área de meio ambiente da consultoria PricewaterhouseCoppers.

Segundo Fujihara, haverá uma mudança de hábito e as empresas começarão a considerar em suas variáveis de decisão de investimentos os ganhos que poderão ser obtidos com a redução das emissões de gases.

É o caso da Sasa. A empresa de saneamento está considerando as receitas com a venda de carbono na expansão de seu aterro sanitário em Tremembé (SP). A idéia é que a negociação dos créditos permita a instalação de uma estação de energia para utilizar o gás liberado pelo aterro. "Se fôssemos implantar apenas para economizar na conta de energia no fim do mês, o projeto jamais seria viável financeiramente", diz Breno Palma, diretor geral da Sasa.

"A rentabilidade de um projeto deve aumentar entre 1% e 5% com a venda dos créditos. Jamais vai transformar um projeto ruim em um bom", diz Esparta. Atualmente, os créditos estão cotados no mercado internacional entre US$ 3 e US$ 5 por tonelada de carbono equivalente.

Mas há exceções a essa regra e a venda dos créditos pode ser a tábua de salvação para as siderúrgicas independentes de Minas Gerais, que utilizam o carvão vegetal para a fabricação do ferro gusa.

O melhor exemplo é a Plantar. A siderúrgica vinha tendo dificuldades para competir com os produtores de ferro que utilizam o carvão mineral, o coque - mais poluente. A única forma de sobreviver seria substituir o insumo. "A tendência era o mercado ser totalmente ocupado pelo coque", diz Geraldo Moura, diretor acionista da Plantar.

Estudo feito pelo setor mostrou que, para cada tonelada de ferro produzida com coque, é emitida 1,9 tonelada de CO2. Quando é utilizado o carvão vegetal, é retida da natureza 1,1 tonelada de CO2, já que durante o crescimento das florestas, transformadas depois em carvão, há o seqüestro do carbono da atmosfera durante a fotossíntese.

Assim, a fabricação de 1 tonelada de ferro com carvão vegetal, permite um ganho ambiental de 3 toneladas de CO2 - 1,9 tonelada que deixa de ser emitida pelas siderúrgicas que usam o coque e mais 1,1 tonelada que é resgatada da natureza.

Para aproveitar a vantagem competitiva ambiental, a Plantar criou um projeto para manter sua produção de ferro com carvão vegetal e começou a negociar com o Banco Mundial. No dia 2 de setembro, a siderúrgica fechou o primeiro contrato de venda de crédito de carbono. Ela vai receber US$ 5 milhões por 1,5 milhão de tonelada de carbono que será entregue ao longo de sete anos, a partir de 2004. Neste mesmo período, a expectativa total de faturamento da companhia é de R$ 280 milhões (cerca de US$ 80 milhões).

A negociação, porém, não inclui o potencial da Plantar. Ela ainda tem 13 milhões de toneladas de CO2 para vender por um período de 21 anos, o que pode lhe conferir até US$ 65 milhões, aos preços de hoje. A empresa vai ainda buscar uma valorização do preço do ferro que produz, já que é mais correto em termos ambientais.

Companhias disputam concorrência na Holanda

De São Paulo


Uma concorrência do governo holandês está movimentando duas empresas brasileiras que estão participando de uma espécie de licitação para vender créditos de carbono. A Sasa e a Usina Catanduva ofereceram juntas quase 1 milhão de tonelada de carbono equivalente - que pode chegar a 5,5 milhões de euros - e buscam seguir o exemplo da Usina Piratini/CGDE, primeira do país a realizar uma venda de carbono.

A companhia de saneamento Sasa está ofertando 700 mil toneladas de carbono equivalente. Como está concorrendo com projetos de várias partes do mundo, Breno Palma, diretor geral da Sasa, não revela sua oferta, mas a Holanda admite pagar no máximo 5,5 de euros por tonelada.

A Sasa investirá R$ 17 milhões na ampliação de seu aterro sanitário para lixo doméstico. A expansão vai gerar um aumento do biogás proveniente da decomposição natural do lixo no aterro. Para evitar que o biogás, formado em sua maior parte por metano e dióxido de carbono, seja lançado na atmosfera, a companhia desenvolveu um projeto para queima do gás e produção de energia elétrica. A não emissão do gás e a substituição de um gerador movido a diesel pela queima do biogás vão propiciar os créditos de carbono a serem negociados.

Hoje, a empresa aproveita o gás gerado - até 500 metros cúbicos por hora (m3/h) - em seu processo interno. A partir de 2003, o volume deve chegar a 800 m3/h e em 2012, poderá atingir 2,3 mil m3/h. Isso dá a Sasa um potencial para gerar até 3 megawatts (MW), suficiente para abastecer uma cidade de até 30 mil habitantes. Sem a implantação do projeto, a companhia não conseguiria aproveitar esse gás.

Inicialmente, a Sasa investirá US$ 550 mil para produzir energia apenas para sustentar suas atividades internas, permitindo a venda das 700 mil toneladas em um período de dez anos. O projeto pode ser expandido em 2004, quando a Sasa deve iniciar a venda de energia e terá mais créditos de carbono para negociar.

Outra participante da licitação holandesa, a Usina Catanduva tem um projeto para gerar energia a partir do bagaço de cana-de-açúcar. A energia fornecida de uma fonte renovável substituirá matérias-primas fósseis e com isso criará créditos de carbono. A usina deve investir entre R$ 30 milhões e R$ 35 milhões para gerar 25 MW.

A empresa está oferecendo na licitação 200 mil toneladas de carbono equivalente. Mas pelos cálculos do consultor da Ecoinvest, Ricardo Esparta, que está assessorando a Catanduva, a usina tem ao todo 324 mil toneladas para negociar até 2012.

Primeira brasileira a vender créditos de carbono, a Companhia Geral de Distribuição Elétrica (CGDE) já está negociando seu segundo lote. Ela produz energia na Usina de Piratini (RS) com cascas de madeira oriundos de serralherias da região.

Antes esse resíduo era abandonado a céu aberto. Agora é queimado gerando energia que substitui o uso de fontes não renováveis, como o petróleo. O dióxido produzido na queima da madeira é consumido pelas áreas de reflorestamento mantidas pelas madeireiras, o que fecha o ciclo de retirada do carbono da atmosfera.

Os créditos da Usina de Piratini foram vendidos de forma experimental para o governo do Canadá e agora a CGDE está negociando os créditos também com a França. "Desde a implantação do projeto, pensávamos em vender créditos de carbono, só não esperávamos que isso fosse acontecer tão cedo", diz Marcos Nascimento, administrador da CGDE.

A companhia investiu R$ 13 milhões na instalação em Piratini. Agora está investindo mais R$ 31 milhões para produzir energia com casca de arroz em D. Pedrito e Capão do Leão, ambas no Rio Grande do Sul. Os três projetos juntos devem dar a CGDE um total de 1,15 milhão de tonelada de carbono equivalente para negociar pelo período de 14 anos, o que pode render US$ 5,75 milhões. (ML)

Contexto


A preocupação com o clima do planeta começou na década de 80, depois do sucesso do Protocolo de Montreal, no qual os países membros se comprometeram com a redução gradual até a substituição total do uso do gás clorofluorcarbono(CFC), responsável por destruir a camada de Ozônio.

Em 1990, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, em inglês), corpo científico da Organização das Nações Unidas (ONU), emitiu um relatório dizendo que a ação do homem poderia estar causando o efeito estufa.

O estudo foi a base para as discussões durante a Eco92, no Rio de Janeiro. Durante o encontro, os países desenvolvidos se comprometeram a reduzir ou limitar voluntariamente, até o ano 2000, as emissões de gases causadores do efeito estufa (GHG, em inglês). O gás carbônico ou dióxido de carbono (CO2) é o mais abundante. Enquanto o metano (CH4) é um dos mais nocivos.

Porém, durante a década de 90, a ONU percebeu que o compromisso não estava sendo cumprido. A partir dessa constatação, em 1997 foi definido, na cidade de Kyoto, o protocolo que transformava as reduções voluntárias em obrigatórias.

O tratado estabelece que a emissão de GHGs deve ser reduzida em torno de 5% em relação ao que era emitido 1990. Os países teriam até 2008 para implementar esses projetos e teriam de comprovar a redução durante o primeiro período de compromisso, fixado entre 2008 e 2012.

Como a industrialização dos países desenvolvidos foi a maior responsável pela poluição causada até hoje, ficou acordado ainda que estas nações deveriam ser as responsáveis pela redução.

No entanto, foram criadas flexibilizações através das quais os países ricos podem promover a redução fora de seu território. Essas alternativas ficaram conhecidas como Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL), sendo a negociação de créditos de carbono sua forma mais conhecida.

Através desse mecanismo, empresas que desenvolverem projetos industriais em países em desenvolvimento que reduzam a emissão de GHGs, ou mesmo retirem esses gases da atmosfera, poderão vender essa redução a países que necessitem se enquadrar nos termos do protocolo.

A moeda de padronização é o carbono equivalente, ou seja, quantas toneladas de carbono correspondem a redução do gás que está sendo eliminado.

Para entrar em vigor, o acordo precisa ser assinado por 55 países que estiveram presentes na convenção de 1992. Até o momento 96 nações já se comprometeram. Mas há uma segunda exigência: tem de haver a adesão de países do Anexo 1 (comprometidos com a redução) que juntos representam 55% das emissões. Até o momento as nações que concordaram com o protocolo representam 37% dessa poluição.

A meta de 55% será atingida se a Rússia e mais um país, que pode ser Polônia, Austrália ou Canadá, assinem o acordo. Fontes do setor acreditam que isso deve ocorrer até meados de 2003, em virtude das declarações favoráveis ao protocolo de autoridades dessas nações.

Fonte:  Valor Econômico (19/11/2002)